quinta-feira, 12 de junho de 2008

O escafandro e uma fome de sólidos terrível.



Terça Feira, 10 de junho de 2008, lembro-me de algumas poucas cenas antes: A sala azul cerúleo de cantos arredondados, as duas luminárias redondas fluorescentes e o meu pensamento convicto de que aquela anestesia não ia funcionar em mim. Nesse meio-tempo tive (ou sonhei que tive) uma sensação terrível de falta de ar.
Três horas depois me apareço noutra cena, ainda convicta de que a anestesia não pegara e que o tempo não havia passado. Ao redor, oito leitos monitorados numa sala branca com detalhes verde-oliva claro, um pano "meio branco-meio vermelho-sangue" babado e uma vontade intensa de falar alguma coisa que se punha inversamente proporcional a quantidade de coisas que eu conseguia falar. Na hora, lembrei-me de um filme de Julian Schnabel que eu vira uns dias antes : "O escafandro e a borboleta" (muito bom por sinal), mas minha situação era bem menos assustadora que a de Jean-Dominique Bauby no filme. Não importa, eu me sentia num escafandro também.
Jean-Dominique no filme conseguiu escrever um livro. Eu, na vida real, não produzi nada mais que algumas linhas de diálogos que me renderam umas boas risadas depois. Nelas constavam:
- Xixí, pede o aparador..hahaha
- Sabe aquela gosminha que fica quando você toma leite? pronto.
- Cade o potinho com as amigdalas? COMO É? FORAM QUEIMADAS?
- Sorrateirazinha essa anestesia!
- Tem açaí ai? açaí???
- Bem vinda ao "NO-AMIGDALAS WORLD", ósculo, nidoca!
- Esperamos que saia dessa com vida! Sexta tomaremos sopa!
- Anota ai, o que eu quero deve envolver : Queijo, ovos, cuentro, presunto e tomate.
- Que fome de sólidos desesperadora!

Quinta-feira, 12 de junho de 2008, já consigo falar várias coisas, embora com dor. Minha alimentação é a base de líquidos. Estou ansiosa, a partir de amanha poderá constar alimentos pastosos... Sólidos e gordurosos ainda sem previsão.

sábado, 24 de maio de 2008

Relatos de uma dependente.


Ando em crise com a modernidade. Logo eu, ser cuja inoperância circunda incessantemente. Em pensar que as correntes utópicas do século XIX diziam que a modernidade viria para dar sossego ao homem. Doce ilusão. Na modernidade nada cessa. Não há tempo para refletir sobre o trabalho, o homem tá mecanizado, como se estivesse sido programado para triplicar os cifrões, só isso. Estamos sempre em fluxo contínuo, mas em direção a que? Aos cifrões do desejo? Sem que nos dessemos conta, atribuiram aos nossos desejos, um pedaço de papel. E sutilmente fizeram-nos depender dele, quando o atribuiram o poder de saciar nossas necessidades fisiológicas. E como se já não bastasse, as necessidades psicológicas.
Carol




Achado de um caderno antigo...


Da inquietude dos meus pensamentos...
Um amor pagão, sem efeito, sem denúncia;
Amor que já não tem mais porto, não tem onde ancorar;
Ficou pelas ruas, esfarrapado, sem rumo;
Deixou muito a desejar...
Faltou a viagem pra galaxia remota;
Faltou perder a cabeça. Profunda sanidade;
Faltou a infinitude num olhar de súbida consciencia;
Faltaram os sorrisos de gratidão estampados num invisível sólido.
Deixou muito a desejar...

Carol



sexta-feira, 16 de maio de 2008

Eis que está.



Eis que decido fazer um blog, não que tenha sido uma grande decisão na minha vida, talvez amanhã eu nem lembre mais dele, talvez escreva meia dúzia de nada útil por dia, ou na melhor das hipóteses escreva alguma coisa que se aproveite pro leitor. Se é que isso terá algum leitor.
Se não, pelo menos satisfiz meu desejo momentaneo de criar isso aqui, então escreverei feliz pra ninguém, ou alguém, ler...